Cientistas portuguesas criam dispositivo que vai detetar o cancro através de gota de sangue

Investigadoras do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP) estão a desenvolver dois dispositivos “autónomos e baratos” que vão permitir a deteção precoce do cancro, através de uma amostra composta por uma gota de sangue.

 

 

De acordo com Goreti Sales e Lúcia Brandão, responsáveis pelos projetos, o objetivo é criar dispositivos de fácil manuseamento, semelhantes aos utilizados para a leitura da glucose em pessoas com diabetes, mas que necessitam apenas da tira de glucose e não precisam da caixa de medida elétrica.

 

 

O projeto 3 P’s (plastic antibodies, photovoltaics, plasmonics), liderado pela investigadora Goreti Sales, do laboratório BioMark, pertencente ao ISEP, engloba três áreas do conhecimento que “nunca se encontraram antes”.

 

 

Nesta investigação, pretende-se juntar anticorpos plásticos a células fotovoltaicas (dispositivo elétrico em estado sólido, capaz de interagir com biomarcadores do cancro e de converter a luz em energia elétrica de forma interdependente) e, de seguida, a estruturas plasmónicas (que aumentam a eficiência da célula fotovoltaica).

 

 

“A leitura da amostra de sangue vai dar origem a uma cor, que vai permitir ao médico verificar se o paciente tem um biomarcador (biomolécula que circula no nosso organismo) alterado e indicar a necessidade de realizar análises aprofundadas e específicas”, explicou à Lusa a investigadora.

 

 

Este processo é “uma despistagem local muito mais intensa do que a que se faz atualmente, com uma taxa de erro muito inferior”, acrescentou.

 

 

“Com o desenvolvimento deste novo conceito de biossensor, vamos poder fazer testes em várias linhas de cancro, utilizando diferentes biomarcadores, podendo ainda estender-se a sua aplicação a outras doenças”.

 

 

Neste momento, a equipa de investigação já conseguiu associar os anticorpos plásticos às células fotovoltaicas, segundo indicou a investigadora, e estão a trabalhar num composto que seja capaz de mudar de cor de uma forma evidente, com o auxílio de materiais orgânicos.

 

 

O que se espera é que seja um produto, de utilização única, “barato e produzido a grande escala”.

 

 

Por seu lado, o projeto Symbiotic, liderado pela também investigadora do BioMark Lúcia Brandão, associa os anticorpos plásticos a um dispositivo autónomo que produz energia, mas não usa a célula fotovoltaica.

 

 

Neste caso, é utilizada uma célula de combustível – uma pilha – “que vai detetar a presença do biomarcador”, esclareceu a coordenadora.

 

 

“Se o sinal elétrico dessa célula combustível variar, vai dar indicação a um outro dispositivo agrupado, que muda de cor, indicando ao médico se o paciente tem indícios de cancro”.

 

 

No projeto 3P’s participam as investigadoras Alexandra Santos, Ana Moreira, Ana Margarida Piloto, Carolina Hora, Felismina Moreira e Manuela Frasco, bem como a responsável pelo Symbiotic, Lúcia Brandão.

 

 

Esta investigação teve início em fevereiro de 2013 e foi financiada através de uma “Starting Grant” da Europeran Research Council (ERC) em um milhão de euros.

 

 

O projeto finaliza em janeiro de 2018, contando com a colaboração do IPO-Porto para o teste do dispositivo em amostras de sangue, urina e saliva.

 

 

O Symbiotic é desenvolvido por um consórcio, composto pelo ISEP, pelo Imperial College, de Londres, pelo UNINOVA, da Universidade Nova de Lisboa, pela organização finlandesa de investigação VTT e pela Universidade Aarhus, da Dinamarca.

 

 

Neste projeto participam pelo ISEP as investigadoras Liliana Carneiro, Maria Helena Sá, e Nádia Ferreira.

 

 

Iniciado em junho de 2015, teve um financiamento de cerca de 3,4 milhões pelo Horizonte 2020 e tem a duração de três anos.

 

 

TPT com: Paulo Novais/Lusa/Nuno Noronha/SAPO// 1 de Maio de 2016

 

 

 

 

 

 

O tratamento de “lesões desportivas” com células estaminais é o futuro que começa hoje

Lesões no tendão de Aquiles, no menisco, nas cartilagens do joelho ou na anca são algumas das lesões desportivas mais comuns e que afetam todo o tipo de atletas, sejam amadores ou profissionais. A ciência, neste campo como em outros, vai desbravando caminho e descobrindo novas soluções e opções, para necessidades.

 

 

Um dos avanços mais recentes está relacionado com a utilização de células estaminais mesenquimais no tratamento deste tipo de situações desportivas. A sua aplicação, segundo investigações recentes, parece indicar benefício na reparação a nível celular, progressão no processo de cicatrização e criação de novos vasos sanguíneos nos membros afetados.

 

 

A cicatrização de um tendão ou a recuperação de uma cartilagem são, por norma, processos lentos, dolorosos, dispendiosos e, na grande maioria, não completos.

 

 

O processo de obtenção deste tipo de células pode ser realizado a partir da medula óssea, sangue periférico, gordura ou pele do próprio paciente. No entanto, estes procedimentos são extremamente invasivos e dolorosos, acarretando um elevado risco de infeção. Mais ainda, tratam-se de células mesenquimais adultas, isto é, com alguma limitação em termos da sua expansão e potência terapêutica.

 

 

A alternativa passa pelo isolamento das células estaminais a partir do tecido do cordão umbilical e a sua posterior criopreservação. Este processo, ao invés das outras opções, é não invasivo, indolor e não representa qualquer risco para as pessoas envolvidas (mãe e recém-nascido). O cordão umbilical é um tecido excendentário, considerado um resíduo cirúrgico, que é normalmente eliminado por incineração.

 

 

Num momento em que, cada vez mais, se fala da criopreservação e do potencial terapêutico das células estaminais no tratamento de diversas patologias e problemas de saúde, a discussão começa agora a ganhar maior consistência em torno da sua aplicabilidade na medicina desportiva, nomeadamente, na recuperação e regeneração de lesões musculares, ósseas e articulares. De todas estas condições, é sobre a cartilagem e articulações que se têm desenvolvido mais pesquisas e avanços e disso vão fazendo eco muitas notícias, nomeadamente, as que incidem sobre o universo futebolístico.

 

 

Apesar de nem todos sermos atletas de alta competição, seguramente todos os que praticamos alguma atividade física estamos expostos ao risco de desenvolvimento de lesões. Assim, é importante precaver o futuro e investir numa solução que permita vir a beneficiar de uma opção terapêutica, caso venha a ser necessária, para este tipo de situações.

 

 

Existem diversas empresas de criopreservação a operar em Portugal. No entanto, nem todas isolam e multiplicam as células no momento anterior à sua criopreservação, procedimento que permite que as mesmas fiquem imediatamente disponíveis caso seja necessária a sua utilização. A melhor solução é optar por uma empresa que garanta o processo de isolamento e multiplicação das células estaminais logo após a colheita, ao invés do simples congelamento do tecido do cordão umbilical (que não garante qualquer aplicabilidade terapêutica).

 

 

O simples processo de congelamento não permite identificar, na altura da colheita, a tipologia de células presente no cordão e se as mesmas apresentam as condições necessárias para serem multiplicadas e criopreservadas com sucesso. Sem esta separação e purificação de células, é possível que, quando for equacionada a sua utilização, se verifique não existirem células saudáveis em quantidade suficiente para garantirem uma aplicação terapêutica eficaz.

 

 

Outro fator essencial na escolha da empresa de criopreservação é a capacidade de investigação. A Cytothera, por exemplo, tem uma parceria com o laboratório de investigação ECBio, que se dedica ao estudo do potencial terapêutico das células estaminais. A ECBio patenteou uma tecnologia de isolamento e de criopreservação das células do tecido do cordão umbilical, designada por células UCX®, com o objetivo de encurtar o período de tempo entre a investigação e o desenvolvimento de métodos e novas aplicações terapêuticas com recurso a células estaminais. Afinal, o futuro não está assim tão longe. O futuro começa hoje.

 

 

Por: Patrícia Cruz, Diretora do Banco de Tecidos e Células do Laboratório Cytothera/Nuno Noronha/SapoSaúde//1 de Maio de 2016

 

 

 

 

Universidade espanhola anuncia nova terapia que pode melhorar tratamento contra a Sida

Uma nova imunoterapia, tendo em conta o comportamento das células “T”, que constituem um componente importante da luta contra a infeção pelo vírus HIV, poderá melhorar o tratamento contra a sida, indica hoje uma universidade espanhola.

 

 

A investigação foi feita pelo Grupo da Biologia de Infeções da Universidade Pompeu Fabra (UPF), em Barcelona, publicada na revista científica “PLOS Pathogens”.

 

 

Segundo o estudo, a investigação parte do princípio de que a infeção crónica pelo HIV dá lugar a uma exaustão do sistema imunitário, fenómeno caracterizado pela alteração do funcionamento das chamadas células “T”.

 

 

Nesse sentido, essas células exaustas mostram proteínas de inibição à superfície que poderão ser elementos chave na restauração da função imunitária.

 

 

Andreas Meyerhans, diretor do Grupo da Biologia de Infeções do Departamento de Ciências Experimentais e da Saúde (DCESX) da UPF, é quem dirige a investigação, que procura estabelecer as condições em que os sinais negativos transmitidos por estas proteínas melhoram o tratamento médico.

 

 

Segundo os investigadores, o sistema imunitário humano é formado por uma complexa rede de reguladores positivos e negativos que coordenam a resposta a ameaças patogénicas.

 

 

Uma pessoa infetada com HIV desenvolve uma resposta imunitária que evita a expansão do vírus, mas, ao mesmo tempo, as células “T”, reguladoras, mantêm a resposta sob controlo, evitando também uma sobre reação das células humanitárias, uma vez que, caso contrário, provocaria lesões nos órgãos e tecidos do infetado.

 

 

À medida que a infeção avança e que fica evidenciado que o vírus não será eliminado, muitas das células “T” “adormecem” face a um mecanismo denominado “exaustão”.

 

 

Desta forma, os investigadores concluíram que bloquear esta exaustão pressupõe uma resposta melhorada das células “T”, levando também uma melhoria no tratamento.

 

 

Na investigação, os cientistas isolaram células sanguíneas de indivíduos infetados com HIV e observaram a resposta depois de as acordarem mediante o uso de anticorpos “anti-PD-L1”.

 

 

“Os indivíduos que tinham a infeção controlada medicamente e que, por isso, mostravam poucos vírus no sangue, viram multiplicado o número de células «T»”, explicam, os investigadores.

 

 

“No entanto, nas amostras em que o vírus não estava controlado medicamente, as células reguladoras «T» multiplicavam-se muito, permitindo uma maior expansão do vírus e dando lugar a um efeito prejudicial”, assinalaram.

 

 

Estas observações podem trazer consequências importantes na altura de utilizar estes anticorpos como tratamento, uma vez que apenas os doentes com HIV que estejam sob tratamento médico obterão uma melhoria na resposta imunitária antivírica.

 

 

TPT com: AFP/ Reuteres /Susana Krauss/Sapo/ /1 de Maio de 2016

 

 

 

 

 

Cientistas portugueses na descoberta das “mães” das células estaminais do sangue

Uma equipa de cientistas da Universidade de Coimbra começou por transformar células da pele em células estaminais, mas as pistas que encontraram levaram-na à origem do processo, ainda no embrião.

 

 

As células estaminais hematopoiéticas – aquelas que darão origem a todos os tipos de células do sangue e do sistema imunitário – não aparecem do nada, mas até agora o processo não era bem conhecido. A equipa de Filipe Pereira, investigador no Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, encontrou os precursores destas células (as que lhes deram origem) no embrião e na placenta. Os resultados foram apresentados esta segunda-feira na revista científica Developmental Cell.

 

Cientistas portugueses descobrem as “mães” das células estaminais do sangue 2

Seguiram uma nova forma de abordagem, como contou Filipe Pereira ao Observador. O trabalho começou em laboratório, numa caixa de petri, quando estudavam como transformar células da pele – fibroblastos – em células estaminais do sangue. Mas este processo deu-lhes pistas sobre como podiam procurar, nos embriões, as células precursoras que dão origem a este tipo de células estaminais. Passaram do in vitro para o in vivo, mas por enquanto só em ratos de laboratório.

 

 

Não obstante o grande investimento feito nesta área de investigação nos últimos 50-60 anos, têm continuado por estabelecer quer a origem destas células [estaminais hematopoiéticas] durante o desenvolvimento embrionário”, confirma ao Observador Perpetua Pinto-do-Ó, investigadora no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, que não fez parte do estudo.

 

 

Quando estavam a transformar fibroblastos em células estaminais do sangue, os investigadores perceberam que as células passavam por uma “célula transitória” com características próprias e marcadores próprios – moléculas específicas que as sinalizam como diferentes das restantes -, explicou o investigador. Depois foi só procurar estes marcadores nos embriões de ratos de laboratório e lá estavam eles – não só nos embriões, mas nas placentas também.

 

 

Filipe Pereira fala das portas que se vê abrirem com estes resultados. A sua equipa já se encontrava a testar se os fibroblastos humanos conseguiam originar células estaminais do sangue como nos ratos de laboratório. Tudo indica que sim e que o processo é equivalente. Agora que já sabem como é que as precursoras dão origem às células estaminais do sangue no embrião, invertem a investigação outra vez e podem tentar replicar o processo nos fibroblastos.

 

 

Na verdade, os investigadores conseguiram mapear todos os genes em termos individuais e da população de células e perceber quais os mais importantes na geração das células estaminais do sangue. Sabendo que “interruptores” se devem ligar para aumentar a produção e replicação destas células, os investigadores poderão no futuro ter mais facilidade em aumentar o número de células para transplante – uma das maiores limitações dos transplantes com células estaminais.

 

 

No organismo adulto a frequência de células estaminais do sangue na medula óssea é relativamente baixa e não conhecemos os fatores necessários à sua expansão [replicação]. Assim, um melhor conhecimento da origem e da geração destas células poderá constituir um avanço por permitir o acesso privilegiado a células que contem a informação que necessitamos descodificar”, explica Perpetua Pinto-do-Ó, presidente da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular.

 

 

Sabendo que as células precursoras podem ser encontradas tanto nos embriões como nas placentas de ratos de laboratório, Filipe Pereira já pensa num novo projeto que inclua células humanas, nomeadamente da placenta. O projeto vai contar com a colaboração de duas universidades britânicas (Oxford e Manchester) e neste momento procura um parceiro português que possa fornecer o material biológico – placentas resultantes de partos ou de interrupções voluntárias de gravidez.

 

 

O avanço desta investigação e dos vários caminhos aqui apresentados poderá vir a mostrar-se importante nos casos de transplante de medula óssea, como também nos casos dos doentes que precisem de ajuda na formação de novos vasos sanguíneos – é que as células precursoras, antes de originarem células estaminais sanguíneas, têm a capacidade para formar células dos vasos.

 

 

TPT com: Vera Novais/OBS/ 1 de Maio de 2016

 

 

 

 

 

Vai haver um colapso da Zona Euro, afirma o ex-governador do Banco de Inglaterra

Num livro que apresentou na London School of Economics, Mervyn King prevê que o peso da dívida soberana na zona euro se tornará excessivo para ser consistente com a estabilidade política

 

 

O nível das dívidas públicas na zona euro requer um processo de integração que passe por reduções significativas que exigiriam a vontade política de alguns países em resgatar outros, o que poderá não ser exequível. Esse fardo poderá tornar-se demasiado grande para ser consistente com a estabilidade política na zona. O resultado será um colapso.

 

 

Em suma, é uma das teses que Mervyn King, governador do Banco de Inglaterra durante uma década, até julho de 2013, discutiu em Londres, na London School of Economics. O tema faz parte do seu mais recente livro “The End of Alchemy: Money, Banking, and the Future of the Global Economy”, acabado de publicar pela editora Little, Brown, no Reino Unido, e que terá uma versão pela W. W. Norton que foi lançada nos Estados Unidos a 21 de março.

 

 

“A União Monetária gerou um conflito entre uma elite centralizada, por um lado, e as forças da democracia a nível nacional, por outro. Isto é extraordinariamente perigoso”, refere King, que vaticina que os periféricos do euro acabarão por se cansar dos sacrifícios que terão de fazer para a permanência no euro. “O contra-argumento – que uma saída do euro levaria ao caos, provocaria a queda dos padrões de vida e prolongaria a incerteza sobre a sobrevivência da união monetária – tem verdadeiramente peso”, escreve o autor, para depois explicar o que provoca a “fadiga”: “Mas se a alternativa é uma austeridade que esmaga, a continuação de desemprego em massa e a ausência de fim à vista para o fardo da dívida, então a saída do euro pode ser a única forma de traçar uma rota de regresso ao crescimento e ao pleno emprego. Os benefícios a longo prazo superam os custos de curto prazo [da saída]”.

 

 

O problema passa pela Alemanha. “A tentativa de encontrar um meio termo não está a resultar. Um dia, os eleitores alemães podem rebelar-se contra as perdas que lhes são impostas pela necessidade de apoiar os seus irmãos mais fracos, e sem dúvida, então, a maneira mais fácil de dividir a zona euro seria a própria Alemanha sair dela”, escreve King.

 

 

Semelhanças com os anos 30 do século XX

 

 

A obra do ex-governador, atualmente professor de Economia e Direito na Universidade de Nova Iorque e de Economia na London School of Economics, sobre o “fim da alquimia” não está focada na zona euro, aborda os desequilíbrios da economia e finança globais e o facto, na sua opinião, dos líderes mundiais não terem atacado as causas da última grande crise financeira de 2007 e 2008. King dirigiu o Banco de Inglaterra durante os anos da crise financeira.

 

 

O ex-governador encontra muitas semelhanças históricas com o período entre as duas guerras mundiais no século XX, quer no período da bolha anterior à Grande Depressão, quer depois, nos anos 1930, incluindo a dose de austeridade imposta em muitas partes da Europa para manter. agora, o euro, e, então, o padrão ouro.

 

 

“Se a próxima crise vai ser mais um colapso do nosso sistema económico e financeiro, ou se vai assumir a forma de um conflito político ou mesmo militar, é impossível dizer. Nem é inevitável. Mas só uma nova ordem mundial poderá impedir tal resultado. Esperemos que a pressão dos acontecimentos guie os estadistas”, conclui King.

 

 

O penhorista para todas as estações

 

 

Conclui, agora, que o dinheiro e a banca são as “partes mais defeituosas do sistema capitalista”, habituadas a uma dada “alquimia”. “Esta forma de alquimia não deve der banida, mas deve ser-lhe fixado um preço”, diz. Por isso, King avança com uma solução: “Os condutores têm de ter um seguro contra terceiros antes de poderem conduzir. Os bancos devem fazer o mesmo. Eles devem colocar uma boa parte dos seus ativos no Banco de Inglaterra, de modo a que, se as coisas derem para o torto, os depositantes possam ser pagos da noite para o dia. Deste modo, nenhuma corrida aos bancos ocorreria”.

 

 

Ele fala de uma função “casa de penhores” para os bancos centrais, da necessidade de um “penhorista para todas as estações” (usa o acrónimo em inglês PFAS). Escreve King: “A essência de uma casa de penhores de sucesso é a vontade de emprestar a qualquer um contra colaterais extremamente valiosos. Em 2008, os bancos tinham muito poucos ‘relógios de ouro’ e abundavam os estragados, e os bancos centrais foram obrigados a emprestar contra colaterais inadequados, de modo a salvar o sistema. Antes da próxima crise, seria sensato certificar-se que o sistema bancário tem suficientes garantias de colaterais, incluindo reservas no banco central, para poder rapidamente usar os fundos para satisfazer a procura de depositantes em fuga e de credores que tenham decido não renovar o financiamento”.

 

 

TPT com: AFP/POOL NEW / REUTERS/ JORGE NASCIMENTO RODRIGUES/Expresso/ 1 de Maio de  2016

 

 

 

 

Presidente da República voltou a afastar o cenário de eleições antecipadas

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou esta sexta-feira que a situação económica internacional pode ter efeitos negativos em Portugal, mas disse não ver qualquer risco de instabilidade política que leve a eleições antecipadas.

 

 

“Eu não vejo nenhuma razão para haver implosão da fórmula governativa ou qualquer risco de instabilidade ou de crise política ou de eleições, o que quer que seja”, declarou Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas, no final de uma visita à Faculdade de Belas Artes, em Lisboa.

 

 

“As próximas eleições que estão no horizonte são as autárquicas do ano que vem”, acrescentou.

 

 

Antes, o chefe de Estado referiu que “a economia americana está a desacelerar e isso está a contaminar várias economias no mundo, o que significa que é muito difícil que a economia portuguesa não venha também a ter alguma desaceleração, e isso é preocupante”.

 

 

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, “há problemas internacionais, há problemas de a evolução económica interna não ser tão boa quanto se esperava ou se previa”, mas no plano político a situação é estável.

 

 

Questionado sobre se a aprovação do Orçamento do Estado para 2017 não pode ser um momento crítico, o Presidente respondeu: “Eu acho que não. Acho que há todas as condições para irmos em velocidade cruzeiro, com as dificuldades económicas do mundo, da Europa e, portanto, também de Portugal. Não é um tempo de maravilhas ou de facilidades”.

 

 

“Mas irmos em velocidade cruzeiro – sendo necessário, naturalmente, acompanhando o que é preciso fazer em termos da evolução económica – realizar as eleições autárquicas, que têm uma incidência sobretudo local, sem estarmos a pensar em Governo que fica ou que cai, em eleições nacionais que há ou que não há”, completou.

 

Marcelo volta a afastar cenário de eleições antecipadas 2

O Presidente da República reafirmou que Portugal não pode estar em permanente campanha eleitoral: “Já chegou o ano de 2015 e o começo de 2016. Não podemos passar a vida a ter eleições dia sim dia não”.

 

 

Interrogado sobre a votação de hoje no parlamento, em que a maioria que suporta o Governo se uniu contra o projeto do CDS-PP de rejeição do Programa de Estabilidade, Marcelo Rebelo de Sousa considerou que aconteceu “o que era esperado”.

 

 

O chefe de Estado reiterou a ideia de que existem neste momento “dois caminhos políticos de governação em Portugal, um caminho traduzido na fórmula governativa e um caminho traduzido na oposição”.

 

 

“Portanto, o que é normal é que a fórmula governativa funcione, e o facto de ter funcionado não é uma surpresa, é o que se devia esperar. Quer dizer, não fazia sentido nenhum que partidos que viabilizaram o Orçamento do Estado há um mês e tal viessem a criar condições de crise a propósito do Programa de Estabilidade ou do Plano Nacional de Reformas”, defendeu.

 

 

De acordo com Marcelo Rebelo de Sousa, existe atualmente “estabilidade financeira” em Portugal, o que “é bom para a estabilidade social e política portuguesa”.

 

 

“Eu já disse várias vezes: temos de viver agora os próximos tempos nesse clima de estabilidade, pensando que eleições próximas são em outubro do ano que vem as autárquicas”, reforçou

 

 

Governo tem pouca margem para cumprir metas difíceis

 

A DBRS considerou esta sexta-feira que a redução do défice prevista no Programa de Estabilidade até 2020 pode ser “difícil de alcançar”, até porque o Governo tem uma margem política reduzida para adotar mais medidas de consolidação orçamental, caso sejam necessárias.

 

Marcelo volta a afastar cenário de eleições antecipadas 3

A agência de notação financeira manteve esta sexta-feira o ‘rating’ atribuído à divida pública portuguesa em ‘BBB’ (baixo), com perspetiva estável, o último nível de investimento antes do ‘lixo’, decisão que garante que o país continue a ser contemplado no programa de compra de ativos do Banco Central Europeu (BCE).

 

 

Para a manutenção do ‘rating’, a DBRS teve em consideração o Programa de Estabilidade 2016-2020, um documento “ambicioso e com vários riscos”, considerou Adriana Alvarado, a analista da agência de ‘rating’ que acompanha Portugal, em declarações à agência Lusa.

 

 

“O Programa de Estabilidade mostra que há um compromisso de consolidação orçamental, mas há riscos na estratégia definida” pelo Governo, afirmou a analista da DBRS, admitindo que alcançar os objetivos de redução do défice “pode ser difícil”.

 

 

No documento, o Governo liderado por António Costa compromete-se com uma redução do défice para 2,2% do PIB este ano, para 1,4% em 2017, para 0,9% em 2018 e para 0,1% em 2019, prevendo alcançar um excedente orçamental de 0,4% do PIB [Produto Interno Bruto] em 2020.

 

 

“A vertente e as metas orçamentais são ambiciosas, embora continuemos a esperar que o défice orçamental desça gradualmente no horizonte. Mas a previsão de crescimento económico no médio prazo é otimista, os cortes previstos na despesa podem ser difíceis e, em cima disto, a capacidade de o Governo adotar medidas adicionais pode ser limitada devido à posição minoritária no parlamento”, alertou Adriana Alvarado.

 

 

No documento, o executivo compromete-se com uma redução da despesa pública a rondar os 1.800 milhões de euros até 2020, na grande maioria através do corte dos consumos intermédios e juros.

 

 

“Se estes riscos começarem a materializar-se, será importante perceber como é que o Governo vai lidar com isso”, disse Adriana Alvarado, admitindo que também existe o risco de “um potencial desacordo entre o Governo e os partidos que o suportam”, caso seja preciso implementar mais medidas de austeridade.

 

 

Por outro lado, a analista da DBRS também considera que a redução da dívida pública até perto de 110% do PIB em 2020, como estima o Programa de Estabilidade, é pouco plausível: “É um objetivo muito ambicioso e que exige um ajustamento orçamental muito restritivo. Pode ser alcançado, mas é muito difícil. Parece-nos mais provável um ritmo mais lento da redução da dívida pública”, disse.

 

 

Perante estes riscos, a DBRS — apesar de manter o ‘rating’ e a perspetiva associada — alerta que a nota atribuída pode ser pressionada para uma revisão em baixa se “houver um enfraquecimento do compromisso político” para a sustentabilidade das contas públicas ou se a economia crescer menos do que o previsto (o que também prejudicaria a dinâmica da dívida pública).

 

A agência deve voltar a avaliar a dívida pública portuguesa no final de outubro.

 

 

TPT com: TVI 24/AFP/Lusa/JN/ Rafael Marchante/REUTERS /Observador/1 de Maio de 2016

 

 

 

 

Para a extrema-direita alemã, o islão não faz parte da Alemanha

O partido que começou por ser anti-euro e que cresceu ao afirma-se como anti-imigração apresentou-se definitivamente como anti-islão no congresso que reuniu 2400 dos seus membros em Estugarda este fim-de-semana. No manifesto aprovado no encontro da Alternativa para a Alemanha (AfD) há todo um capítulo intitulado “O islão não faz parte da Alemanha”.

 

 

A ideia era que a reunião em Estugarda, no Sul da Alemanha, permitisse ao movimento que já elegeu deputados em 16 parlamentos regionais alargar a sua plataforma, com discussões sobre economia e segurança social. Mas o debate foi marcado por tiradas antimuçulmanas, ainda que um dos participantes se tenha oposto ao capítulo dedicado à religião de 5% dos alemães.

 

 

Ernst-August Roettger, delegado da cidade de Lüneburg, sugeriu que a linguagem usada no programa se opõe à Constituição alemã e defendeu que é preciso distinguir entre islão e islamismo, apelando aos alemães “para iniciarem um diálogo com as suas comunidades muçulmanas locais”, intervenção apupada por muitos na assistência. Já a resposta foi muito aplaudida: “O islão é estrangeiro para nós e por isso não pode invocar o princípio da liberdade de expressão no mesmo grau que o cristianismo”, retorquiu Hans-Thomas Tillschneider, deputado no estado da Alta Saxónia.

 

 

O argumento usado por Tillschneider parece fazer tanto sentido como um manifesto de 1400 páginas onde se afirma que o partido respeita a liberdade religiosa mas se pede a proibição dos minaretes (torres das mesquitas), da burqa (túnica e véu que cobrem o corpo e todo o rosto) e niqab (véu que deixa apenas os olhos a descoberto). Os minaretes, escreve-se no texto, são “símbolos do poder islâmico”.

 

 

“O nosso programa é a estrada para uma Alemanha diferente”, afirmou aos participantes Jörg Meuthen, porta-voz e co-presidente do AfD com Frauke Petry. Isto é “apenas o início”, disse Meuthen no mesmo dia em que uma sondagem publicada no jornal Bild sobre as legislativas do próximo ano atribuía 13% de intenções de voto ao partido, que assim se tornaria na terceira força política alemã.

 

 

“No Verão de 2015 davam-nos como mortos”, afirmara Petry na abertura do congresso, sábado, sublinhando os sucessos surpreendentes dos últimos tempos, com os bons resultados nas regionais de Março. Nascido há três anos, o partido beneficiou do descontentamento face à decisão da chanceler Angela Merkel de abrir as portas à entrada de um milhão de refugiados e imigrantes ao longo do ano passado.

 

 

Família e História

 

 

O AfD apresenta-se como “conservador, livre e patriota” e entre as propostas já aprovadas para integrarem o programa consta o fim da moeda única, a defesa das fronteiras da Alemanha, a deportação de estrangeiros condenados por crimes, o regresso do serviço militar obrigatório e o reafirmar dos “valores familiares tradicionais e da cultura nacional”.

 

 

Meuthen, que descreve o partido como uma mistura entre “conservadorismo moderno” e “patriotismo são”, defendeu que é preciso valorizar “os aspectos positivos da História alemã”, lamentando que a memória oficial “se reduza” ao passado nazi. Não é certo o que sobrou da proposta inicial de manifesto (houve 1500 propostas de alterações e ainda se votava à hora a que o encontro deveria ter terminado), mas na versão original constava a ideia de “obrigar os professores a porem fim ao ‘excesso de ênfase’ na era nazi”.

 

 

Para contrabalançar o tom geral dos debates, o AfD aprovou uma moção para dissolver o seu ramo no estado de Sarre, depois de se saber que alguns dos seus membros têm laços a grupos neonazis.

 

 

TPT com: Philipp Guelland/AFP/Sofia Lourena/Público// 1 de Maio de 2016

 

 

 

 

“O Obama está no ir”. Quem se segue no jantar dos correspondentes?

Donald Trump não esteve presente no tradicionalmente bem-humorado evento da classe política e jornalística de Washington. Mas por lá andou a pairar. Barack Obama, Presidente-comediante cessante, não ignorou as polémicas em torno do candidato republicano. Mas também não poupou Hillary nem Sanders.

 

 

Foi o último jantar dos correspondentes na Casa Branca de Barack Obama e – o Presidente norte-americano assume o receio – “talvez o último jantar dos correspondentes”. Num ano de deboche na política norte-americana e com Donald Trump a ser o ausente mais presente, o chefe de Estado suspirou e brincou: “o fim da república nunca teve tão bom aspecto”. Este sábado, no tradicional e bem-humorado evento que reúne anualmente os jornalistas de Washington, boa parte da elite política e ainda caras conhecidas das artes e entretenimento, Obama mostrou de novo algo que provavelmente não voltaremos a ver tão cedo: um Presidente com piada. Ou com bons argumentistas por trás.

 

 

Em ano de eleições, a oposição republicana foi naturalmente o principal alvo do Presidente democrata. E Donald Trump o mais fácil. Obama ironizou sobre as credenciais políticas, e sobretudo diplomáticas, do candidato que lidera as primárias republicanas, como quando defendeu a experiência do milionário nas relações internacionais: “Passou anos a encontrar-se com líderes de todo o mundo: a Miss Suécia, a Miss Argentina, a Miss Azerbaijão…”

 

 

“E há outra área em que a experiência de Donald pode ser inestimável: fechar Guantánamo. Isto porque Trump sabe umas coisas sobre falir empreendimentos à beira-mar”, disse numa alusão aos repetidos investimentos falhados do magnata do imobiliário. Era também uma auto-crítica e o reconhecimento tácito do incumprimento de uma promessa com oito anos – o encerramento da prisão militar norte-americana nas Caraíbas, uma terra de ninguém do direito internacional onde suspeitos de terrorismo enfrentam violações de direitos humanos.

 

 

Outra alfinetada no Partido Republicano a propósito do desconforto em relação ao iminente apoio a Trump como candidato presidencial e à falta de alternativas sérias (Ted Cruz) ou mobilizadoras (John Kasich). “Perguntámos aos convidados se queriam carne ou peixe, e em vez disso muitos de vocês escreveram Paul Ryan”, disse sobre o speaker da Câmara dos Representantes, figura apontada como uma improvável solução de último recurso para travar Trump na convenção de Julho em Cleveland, no Ohio.

 

 

Mas também houve bocas para Hillary Clinton e Bernie Sanders, os democratas que ainda disputam a nomeação nas primárias do partido de Obama. “Hillary a tentar apelar aos jovens eleitores é um bocado como aquele vosso familiar que só agora chegou ao Facebook: ‘Querida América, não recebeste o meu poke? Não aparece no teu mural? Não sei usar esta coisa”, disse sobre o tom morno da campanha da antiga primeira-dama.

 

 

Para Sanders ficou reservada a tirada mais simpática: “Foi operado recentemente a uma hérnia. Os médicos dizem que a culpa é dele, que anda a tentar elevar a esperança dos excluídos. Tem de fazer alongamentos primeiro, senador”. Uma demonstração de respeito por um político veterano ou o reconhecimento do entusiasmo que, ao contrário de Hillary, o senador do Vermont gera naquele que também foi, em boa parte, o seu eleitorado?

 

 

Obama também se colocou à frente da mira. Pode dar-se ao luxo de fazê-lo, tendo em conta os elevados índices de popularidade após oito anos na Casa Branca. “A última vez que estive tão em altas (high – ‘pedrado’, numa tradução livre) foi quando estava a tentar escolher o curso”, brincou. Queixou-se de já não ser respeitado: “Na semana passada, o príncipe George chegou ao nosso encontro de roupão. Que chapada de luva branca…”. Nem ouvido: “Há oito anos, disse que era tempo de mudarmos o tom da nossa política. Em retrospectiva, claramente deveria ter sido mas específico”.

 

 

Foi aplaudido, pelo menos. Sai por cima e despede-se como se tivesse vencido uma batalha de rap. “O Obama está no ir”. E larga o microfone. Boom. Resta saber quem o pega em 2017.

 

 

TPT com: REUTERS/Yuri Gripas/AFP//Pedro Guerreiro/Público// 1 de Maio de 2016