Augusto Marques, de 59 anos, é, há 37 anos, funcionário da Portucel, em Cacia, Aveiro, onde também vive. Como recepcionista de materiais, conta dezenas de camiões, carregados de madeira, por dia. E foi sempre nos tempos livres que arranjou espaço para os estudos. Garante que nunca o fez em busca de “valorização profissional”, mas sim “pessoal”.
“Foi um vício que ganhei”, assume Augusto, que recebeu, na Universidade de Aveiro, o seu terceiro diploma, relativo ao curso que concluiu em setembro do ano passado.
Quando terminou o Ensino Secundário, Augusto começou logo a trabalhar na Portucel. Mas, pouco depois, como trabalhador estudante, inscreveu-se no Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Aveiro. Demorou muitos anos a concluir essa primeira licenciatura. Tantos que lhes perdeu a conta. Mas terminou, em 1998.
“Faltava-me uma cadeira e prometi ao meu santo protetor, ao S. Gonçalinho, que lhe dava determinado montante por cada valor que tivesse acima de 10. Acabei com 18. Ele cumpriu e eu também. Quando fui pagar a promessa, o senhor que recebeu o dinheiro disse que nunca tinha visto ninguém dar tanta esmola ao santo”, recorda Augusto, emocionado.
Quando se viu livre dos estudos, o rececionista da Portucel não se sentiu aliviado. Faltava-lhe qualquer coisa. Pelo meio, fez apenas um interregno, para construir, com a ajuda de um vizinho, a casa onde hoje vive com a mulher e com os dois filhos, de 19 e de 14 anos.
Depois, voltou o “bichinho” dos estudos. “Meti-me no segundo curso porque dei por mim a precisar de ocupar o tempo livre que tinha entre os turnos na fábrica. E fui para Economia em parte porque apostei, por brincadeira, com uma amiga, que acabava aquele curso primeiro do que ela. E assim foi. Terminei-o em 2011”, garante Augusto Marques.
Administração Pública veio logo de seguida e, em três anos, Augusto, o eterno estudante, conseguiu arrecadar o seu terceiro “canudo”.
Sem estudar desde setembro, já se inscreveu num instituto de Inglês. E apesar de dizer que sente que já não tem “a mesma capacidade física nem mental” e que conhece as suas “limitações”, ainda equaciona inscrever-se em cadeiras isoladas do curso de Psicologia.
“Cheguei a ser criticado por amigos, apesar de sempre ter tido todo o apoio da família. Ocupava as minhas férias a estudar, às vezes 12 horas por dia. Mas estudar é o meu escape. É devoção”, confidencia.
SALOMÉ FILIPE/JN/TPT/4/8/2015




