Não foi preciso esperar que Barack Obama chegasse a Londres, com toda a sua comitiva e a aura de estrela que sempre o acompanha nas viagens ao estrangeiro, para que a comoção se instalasse perante aquela que promete ser a intervenção externa de maior peso na campanha para o referendo de 23 de Junho. Downing Street aguarda com ansiedade a injecção de adrenalina que representa o apoio do Presidente norte-americano à permanência do Reino Unido na União Europeia. Para os eurocépticos, tudo o que ele disser soará a “hipocrisia” e “ingerência” da superpotência na política interna britânica.
A visita a Londres – possivelmente a última antes de deixar a Casa Branca, em Janeiro de 2017 – coincide com as celebrações dos 90 anos da rainha Isabel II, com quem Obama almoça nesta sexta-feira no Castelo de Windsor. Mas, como escreveu o Financial Times, “a prenda que o Presidente dos EUA traz do outro lado do Atlântico é para David Cameron”, o primeiro-ministro com quem vai partilhar uma conferência de imprensa à porta do famoso n.º 10.
Ao responder aos jornalistas, e no artigo que escreveu para o eurocéptico jornal Daily Telegraph, Obama vai caminhar sobre gelo fino. Terá de evitar a imagem do “homem mais poderoso do mundo” que vai a Londres dar lições, mas não quer que restem dúvidas sobre a importância que, para Washington, representa a participação britânica na UE. É pouco provável que, em qualquer momento, coloque na equação a “relação especial” tão cara aos dois países – embora, em privado, responsáveis da Casa Branca avisem que a eventual saída teria consequências nesta íntima relação diplomática.
Obama deverá antes louvar a UE como garante da paz e da estabilidade europeia e alertar os britânicos que, fora dela, a perda de influência do país será inevitável. “O Reino Unido tem exercido uma enorme influência no mundo nos últimos séculos. Esperamos que essa influência se mantenha e acreditamos que, no mundo de hoje, a melhor maneira de o fazer é através do multilateralismo”, disse ao FT Charles Kupchan, conselheiro para os assuntos europeus da Casa Branca.
Outros antes dele usaram os mesmos argumentos – e ele próprio deixou-os claros na entrevista que deu no Verão à BBC. Mas ao ir a Londres, com a campanha já no terreno, Obama dá a Cameron um muito aguardado impulso, depois de semanas em que o primeiro-ministro viu a sua popularidade ser minada pelo escândalo dos “Panama Papers” e a corrida para o referendo abriu brechas no Governo que serão difíceis de fechar.
Em Downing Street, escreveu o Guardian, há a esperança de que a visita confirme uma viragem no rumo da campanha, depois de uma vaga de relatórios e tomadas de posição contrárias aos partidários do Brexit. “É cada vez mais claro que a campanha deles não tem recursos suficientes e é incapaz de explicar o que seria o Reino Unido fora da UE. Nós temos Obama do nosso lado e quem é que eles conseguiram? Marine de Le Pen”, disse ao jornal um responsável do Governo, citando a notícia de que a líder da Frente Nacional planeia participar na campanha.
Fúria eurocéptica
As seis sondagens divulgadas nesta semana apontam para uma subida nas intenções de voto no “sim” à permanência, mas a vantagem para o “não” é ainda insuficiente para confirmar a reclamada viragem. Mais uma razão para Cameron dar todo o palco possível a Obama, que continua a ser o mais popular dos presidentes americanos na Europa. “Ele é o homem certo para convencer os que não estão realmente mobilizados. Ele vai captar-lhes a atenção”, antecipa o antigo ministro trabalhista e comissário europeu Peter Mandelson.
A popularidade de Obama é uma das razões que explicam a indignação com que a campanha pelo “não” reagiu à notícia de que o Presidente democrata não iria abster-se de comentar os assuntos internos britânicos. Mais de uma centena de deputados, na maioria conservadores, assinaram uma petição dirigida ao embaixador norte-americano em Londres para denunciar a “ingerência” de Obama.
A reacção mais indignada partiu de Boris Johnson, o mayor de Londres que acusou a Casa Branca de “hipocrisia pura” quando argumenta que o Reino Unido perderia peso internacional fora da UE. “É bizarro estarmos a receber lições dos americanos sobre a perda de soberania quando eles nem sequer sonham em partilhar a sua.” Ian Duncan Smith, que deixou o Ministério da Segurança Social já com a campanha em andamento, ridicularizou também o entusiasmo de Cameron com a visita, dizendo que Obama só acedeu participar “porque o primeiro-ministro foi ajoelhar-se aos seus pés pedir-lhe que ‘viesse para o ajudar a intimidar os britânicos’”.
A ferocidade das críticas soaria menos estranha se viesse da ala esquerda dos trabalhistas – para quem Obama quer apenas garantir o apoio de Londres no TTIP, a parceria transatlântica em negociação entre os EUA e a UE. Ao invés, partem de políticos tradicionalmente pró-americanos, que defendem que, livres das amarras de Bruxelas, Londres seria livre para fazer acordos comerciais mais favoráveis, incluindo com Washington, apesar de a Administração americana ter dito não estar “particularmente interessada em acordos com países a nível individual”.
“É possível perceber porque é que a campanha pela saída está tão alarmada com as intervenções de Obama”, escreveu Philip Stephens, director adjunto do FT, afirmando que o Presidente vem a Londres “espetar uma adaga no coração do campanha do Brexit”, fazendo “explodir o falso argumento de que há uma escolha entre o outro lado do Canal [da Mancha] e o Atlântico”.
Arábia Saudita recebe Obama com frieza inédita
Um Presidente dos Estados Unidos está habituado a recepções fortes quando visita outros países, especialmente tratando-se de importantes aliados. Não foi isso que aconteceu quando Barack Obama aterrou em Riade. À sua espera estava uma pequena delegação chefiada pelo governador local e a chegada nem sequer teve direito a transmissão televisiva, como em 2015.
Em diplomacia, os pequenos gestos contam. O reino saudita quis deixar bem claro que não está contente com a recente conduta da Administração Obama, especialmente a aproximação ao Irão, grandes rivais pela hegemonia regional. A recepção do Presidente norte-americano contrastou com aquela que foi oferecida aos chefes de Estado dos membros do Conselho de Cooperação do Golfo Pérsico (CCG) — em Riade para uma cimeira com Obama esta quinta-feira —, que tiveram direito à presença do rei Salman no aeroporto. A Casa Branca disse não ter atribuído um carácter político à ausência do rei saudita e explicou que foi oferecido pelo palácio um almoço de boas-vindas, ao qual Obama não pôde comparecer por questões de agenda.
A tarefa do Presidente dos EUA nesta última deslocação à Arábia Saudita era tentar apaziguar o descontentamento dos seus aliados na região, assegurando que o levantamento das sanções ao Irão não significa uma viragem na política externa de Washington. A nota oficial da Casa Branca sobre o encontro entre os dois líderes tenta fazer a quadratura do círculo, ao qualificar como “provocatórias” as acções do Irão na região, mas sublinhando “a importância de uma abordagem inclusiva para o desanuviamento dos conflitos regionais”.
Entre os restantes temas discutidos no encontro entre o rei Salman e Obama esteve a campanha de bombardeamentos aéreos contra posições do autoproclamado Estado Islâmico no Iraque e na Síria e conflitos regionais como a guerra civil no Iémen, onde Arábia Saudita e Irão protagonizam um confronto por procuração. De uma forma geral, o mesmo memorando dá conta de “trocas de pontos de vista” entre os dois líderes, mas não há qualquer referência a acordos alcançados ou mesmo coincidência em abordagens.
A frieza da Arábia Saudita face a Washington é partilhada pelos restantes membros do bloco regional, que se reuniu esta quinta-feira com o terrorismo e as relações com o Irão no topo da agenda. “A segunda cimeira EUA-CCG chega numa altura em que os pontos de vista dos Estados Unidos e do Conselho de Cooperação do Golfo acerca da política regional são drasticamente diferentes”, escreve na Al-Jazira a analista Hala Aldosari.
“Nas questões centrais, há um acordo sobre onde queremos chegar”, disse Ben Rhodes, um dos conselheiros de Obama para a segurança nacional, antes do encontro do Presidente com os países do Golfo Pérsico. “Esta cimeira permite-nos alinhar as nossas abordagens e estratégias”, acrescentou o responsável, citado pela Reuters.
Nas palavras que dirigiu aos líderes regionais, Obama deixou uma mensagem clara contra as divisões tendo por base as diferenças religiosas, numa alusão à crescente tensão entre sunitas e xiitas – representada pela rivalidade Arábia Saudita-Irão. “Se as pessoas se vêem a si próprias não como cidadãs de um país, mas como membros de um particular ramo do islão, isso é uma receita para os países colapsarem.”
TPT com: AEP/ KEVIN LAMARQUE/Reuters/Ana Fonseca Peraira/Público/ 22 de Abril de 2016