Um grupo de oficiais reformados publicou uma declaração repudiando as afirmações de Donald Trump contra as Convenções de Genebra. Se o candidato à investidura republicana chegar à Casa Branca, dizem, não terá condições para exercer a função de chefe supremo das Forças Armadas.
Um denominador comum a vários subscritores do documento é o de apontarem Trump como um fanfarrão que nunca se viu confrontado com nenhuma guerra autêntica e por isso fala levianamente sobre temas militares. Nesse sentido, os oficiais que agora vieram a terreiro, situam Donald Trump na tradição dos “falcões-galinha” – políticos como George W. Bush ou Dick Cheney, sempre lestos a mandar tropas para a guerra, porque sempre tinham fugido a fazer as guerras do seu tempo – antes de mais a do Vietname, à qual conseguiram escapar com as mais variadas artimanhas burocráticas.
Steve Kleinman, coronel na reserva da Força Aérea e um dos subscritores da declaração, afirma, segundo citação do diário britânico Guardian, que “Donald Trump não conseguirá de modo algum entender [Genebra] porque não tem nem a experiência, nem a competência, nem a bússola moral para entender”.
Kleinman, que foi também um interrogador de prisioneiros, referiu-se às afirmações de Trump a favor da tortura sublinhando que as Convenções de Genebra “são uma construção moral e táctica fundamental que serve como fundamento para a lei do conflito armado, porque todas as guerras chegam ao fim, incluindo a guerra global contra o terror. Nós, como comunidade de nações, temos de lidar uns com os outros e não ficar separados pelo tratamento horrível, imoral, de um lado contra o outro”.
Paul Yingling, um coronel reformado do Exército, foi vice-comandante do regimento de Cavalaria que retomou a cidade iraquiana de Tall Afar, que tinha caído nas mãos dos insurrectos, mas já nessa altura tinha sobressaído pelas suas críticas a oficiais generais que conduziam a ocupação do Iraque.
Também ele lembrou que “os militares americanos, homens e mulheres, juram apoiar e defender a Constituição, incluindo as nossas obrigações de aderir a tratados sobre o tratamento dos não-combatentes”. E acrescentou que “prisioneiros de guerra e membros das famílias de suspeitos de terrorismo são não-combatentes. Torturar e assassinar não-combatentes são as acções de criminosos e cobardes. Os homens e mulheres das Forças Armadas dos EUA não são uma coisa nem outra”.
Segundo Yingling, “a convicção de que a tortura resulta está baseada em programas da televisão americana. Como um veterano de cinco missões de combate e um antigo instrutor de contra-terrorismo, a minha experiência limita-se à realidade”.
Christopher Harmer, um antigo piloto da Marinha, comentou: “Ao preconizar o assassínio de mulheres e crianças cujo único crime é o de pertencerem à família de terroristas, ao falar em bombardeamentos massivos de grandes faixas do Médio Oriente, ao opinar que o Japão, a Coreia do Sul e a Arábia Saudita deviam obter armas nucleares, Donald Trump emerge exactamente como o que é: uma vedeta de reality TV, que não tem a menor ideia sobre como funciona na prática a segurança dos EUA”.
Considerando que Trump está “monumentalmente impreparado” para o exercício das suas funções, Harmer afirmou ainda que “a sua candidatura é apenas um factor de embaraço para os Estados Unidos; se ele viesse realmente a tornar-se presidente, faria estragos imensos nas nossas relações estratégicas com os nossos aliados”.
TPT com: Mark Kauzlarich, Reuters/WP/RPT/AEP/ 8 de Maio de 2016