O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, expressou esta quarta-feira a sua preocupação relativamente à onda de detenções na Turquia na sequência da tentativa de golpe de Estado.
Ki-moon disse ao ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Meylut Cavusoglu, durante um telefonema, que “provas credíveis” devem ser apresentadas rapidamente para que o estado legal dos detidos possa ser determinado por um tribunal.
Mais de 15.000 pessoas, incluindo militares, foram detidos durante a “limpeza maciça” que se seguiu à tentativa falhada de golpe a 15 de julho, sendo que 8.000 continuam sob custódia.
Esta quarta-feira, as autoridades turcas, através de mandados de prisão, detiveram dezenas de jornalistas, incluindo 47 antigos funcionários do jornal ‘Zaman Daily’.
Durante a sua conversa com o ministro Cavusoglu, Ban Ki-moon mostrou-se “preocupado com os relatos de maus tratos e abusos de alguns dos detidos que se encontram sob custódia e as suas condições de detenção, ressaltando a sua profunda apreensão com as inúmeras prisões, detenções e suspensões”, disse o porta-voz do secretário-geral, Farhan Haq.
“Evidências claras sobre aqueles que estão a ser investigados devem ser apresentadas ao sistema judicial para que a determinação legal seja feita em tribunais”, acrescentou.
O chefe da ONU disse que, embora reconheça as “circunstâncias extraordinárias que o país atravessa após a tentativa de golpe” esperava que a Turquia respeita-se os direitos fundamentais e que aderisse as obrigações internacionais.
Ban mencionou, diversas vezes, que a Turquia precisa de respeitar a liberdade de expressão.
O primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, alertou para a repressão e a purga desencadeada após o golpe de Estado falhado.
Ki-moon disse “acreditar que o Governo e as pessoas da Turquia vão transformar este momento de incerteza num momento de união, preservando a democracia do país”, disse o porta-voz.
Turquia ordena encerramento de centenas de empresas de media
A CNN turca avança que as autoridades da Turquia ordenaram que centenas de meios de comunicação social fossem encerrados e vários militares foram afastados.
Foram encerradas três agências de notícias, 23 estações de rádio, 16 canais televisivos, 45 jornais, 15 revistas e 29 editoras e distribuidoras.
Vários oficiais do exército foram também afastados. “Os elementos das Forças Armadas foram despedidos por cumplicidade na tentativa de golpe de Estado”, afirmou um responsável turco, especificando que foram demitidos 87 oficiais superiores do Exército, 30 da Força Aérea e 32 da Marinha.
O Presidente turco, Tayyip Erdogan, declarou na semana passada o estado de emergência no país durante um período de três meses. Desde então já afastou 6.500 professores, reitores e funcionários da educação, 42 jornalistas foram detidos e 13.000 pessoas foram também detidas por associação direta ao golpe.
2.300 escolas, universidades, clínicas e associações com ligações ao líder religioso Fethullah Gülen foram declaradas ilegais ou encerradas.
Até ao momento foram destituídos 50.000 funcionários, públicos e privados, a maioria integrados no setor educativo.
Encontro Putin-Erdogan anunciado para 9 de agosto em São Petersburgo
O Presidente russo Vladimir Putin e o seu homólogo turco Recep Erdogan devem encontrar-se a 09 de agosto em São Petersburgo, pela primeira vez quase um ano após a crise que afetou as relações bilaterais, anunciou esta terça-feira o Kremlin.
A data e o local da visita foram confirmados pelo porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, confirmando as informações anunciadas previamente por responsáveis turcos de visita ao país, e quando Moscovo e Ancara tentam normalizar as relações económicas.
“Trata-se do primeiro encontro após o incidente que ocorreu nas nossas relações (…) e após os dois dirigentes terem decidido virar a página”, sublinhou.
“Podemos dizer com segurança que não vão faltar temas de conservação”, prosseguiu.
O derrube em novembro de um bombardeiro russo pela aviação turca junto à fronteira turco-síria originou uma grave crise nas relações entre Moscovo e Ancara. A Rússia adotou, na ocasião, diversas medidas de retaliação económica contra a Turquia.
Após meses de acusações entre os dois dirigentes, as relações russo-turcas distenderam-se no início de julho, quando Erdogan enviou a Vladimir Putin uma carta de desculpas.
Após a tentativa de golpe de Estado na Turquia em 15 de julho, Putin contactou por telefone com Erdogan e desejou um rápido regresso à estabilidade, pedindo-lhe ainda para garantir a segurança dos turistas russos.
No quadro desta reaproximação, uma delegação ministerial turca manteve esta terça-feira encontros em Moscovo para tentar relançar a cooperação, e após a crise diplomática ter prejudicado o comércio agrícola comum ou comprometido importantes projetos, incluindo o gasoduto TurkStream.
Sistema presidencial “está praticamente em vigor” na Turquia
O sistema presidencial está “praticamente em vigor” na Turquia e o Presidente Recep Tayyip Erdogan, regido por preceitos e discursos nacionalistas e islamitas, tem hoje pouca gente em quem confiar, considerou um ativista turco.
“Neste momento [Erdogan] está a liderar quase todas as reuniões do Conselho de Ministros, o que quer dizer que o sistema presidencial está praticamente em vigor”, considerou Sinan Eden, natural de Izmir, 30 anos, há cinco anos a viver em Portugal e muito perto de concluir o doutoramento em Matemática no Instituto Superior Técnico (IST).
“O problema é que não tem ninguém para confiar e depois aplicar as decisões que pretende, quer no atual sistema enquanto Presidente, quer num suposto e futuro sistema presidencial. Precisa de amigos, e tem poucos amigos”, acrescentou Sinan Eden, também um ativista ambiental, com diversos artigos publicados sobre esta temática, em particular as alterações climáticas, e que se exprime quase corretamente em português.
Na sequência da fracassada e sangrenta tentativa de golpe militar em 15 de julho, o Governo dominado pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, islamita-conservador, também fundado por Erdogan e no poder desde 2002), já ordenou a detenção de mais de 13.000 pessoas, enquanto dezenas de milhares foram afastadas dos seus cargos.
Erdogan — que ocupou o cargo de primeiro-ministro entre 2003 e 2014, quando foi eleito Presidente por voto direto –, atribuiu a tentativa de golpe à oficialmente designada “Organização Terrorista Fethullah Gülen” (FETÖ), numa referência ao influente clérigo islamita que se autoexilou nos EUA em 1999 e que, de aliado do atual chefe de Estado, se tornou a partir de 2013 num dos seus principais inimigos, acusado de pretender criar um “Estado paralelo” no país através da sua influência no meio escolar, militar, judicial ou nos media.
Na perspetiva do ativista turco, as “purgas” que agora decorrem estão também a ser dirigidas contra muitos responsáveis designados por Erdogan, e quando Gülen o ajudou, nos primeiros anos de poder, a “islamizar” a administração pública.
“Durante este processo verificou-se a liquidação de outros setores da população, principalmente os setores republicanos, laicos, e outros democratas, e que já não fazem parte do Estado. Este foi um primeiro processo que se prolongou por 12 anos”, assinalou.
“Mas nos últimos dois, três anos, é no interior do Estado. São pessoas que foram designadas por estes governos do AKP. Isso indica como se encontra o Estado neste momento. Não está a acontecer à margem do Estado, mas no interior do Estado”.
No entanto, Sinan Eden, não hesita em definir o “movimento gulenista”, ou Hizmet, como um “movimento de ‘jihad’, e perspetiva: “Traduz-se como imperialismo, é assim que têm alianças com os Estados Unidos, ou na zona do Médio Oriente. Hizmet em turco significa ‘Serviço’, este serviço que fazem é a ‘jihad’, é a guerra, só que não é com armas, usam outros métodos. O terreno desta ‘jihad’ é o mundo, estão muito bem organizados na Ásia, África e Estados Unidos”.
O ativista arrisca mesmo um pedagógico paralelismo, transposto para o contexto europeu e ocidental, entre o movimento do predicador e ex-imã Gülen e o seu atual arqui-inimigo Erdogan.
“Comparo o movimento Gülen com o Vaticano, e Erdogan com os radicais evangelistas. [Na Europa] esta escolha não existe, aqui ninguém pergunta a quem vamos dar o poder político, se ao Vaticano ou aos evangelistas, é uma pergunta irracional. No nosso caso também”.
Nesta abordagem associa o Hizmet ao Vaticano “no sentido em que utiliza muitas formas diferentes para se aproximar ou chegar ao poder. Por vezes através de formas obscuras, muitas vezes com fortes redes orgânicas que não são visíveis para quem não está dentro da rede”.
“clandestina”, e que durante anos se infiltrou nas instituições. “Por isso estava a tornar-se muito difícil erradicar este movimento do Estado turco, porque nunca se sabe exatamente quem são, e utilizam táticas muito diferentes para se manterem nas suas posições”.
Erdogan cada vez mais só
Sinan Eden deteta características diversas no Presidente turco: “Tem muito menos ideologia por detrás, tem simplesmente uma ambição de poder e não tem muito a noção da diplomacia“, refere, numa alusão à sua abordagem inicial à guerra na Síria, ou ao conflito com Moscovo na sequência do derrube de um avião russo militar em novembro de 2015.
“Fez coisas que ninguém até agora fez, porque são riscos para o planeta. Decide estes riscos porque é mais impulsivo…”, adianta ainda numa referência ao homem-forte da Turquia, detetando na sua ideologia e discursos um misto de nacionalismo e islamismo.
“E quando quer consolidar o poder, é sempre bom ter um inimigo desde sempre, atacar e tentar unir diversas forças em torno de si, para apontar o inimigo e atuar, em vez de ficar a discutir. É uma das táticas”, afirma.
O militante ambientalista não hesita mesmo em atribuir características ditatoriais ao atual regime de Ancara, mas denota a “dificuldade prática” desta deriva e que consiste em “tomar sozinho todas as decisões”, uma atitude pouco “realista”. “No mundo, em geral, todos os movimentos têm uma equipa mas Erdogan cada vez tem menos uma equipa confiável, o que significa que a operacionalização das suas decisões vai ficar cada vez mais difícil”, arrisca.
A dificuldade em prever a evolução da situação interna na Turquia mereceu ainda um reparo do ativista turco.
“Erdogan já fez alianças para atacar terceiros, depois desfez essas alianças para atacar os antigos aliados, e continuar assim. O regime de Erdogan está muito isolado na Turquia e a nível internacional”, reforçou.
“De momento, não estou a ver nenhum aliado do regime de Erdogan e ele também está a perceber. E por isso está agora num processo de normalização com Israel e com a Rússia. Mas isso é regressar ao início”, concluiu.
Opositor turco Gülen volta a pedir aos Estados Unidos para não ser extraditado para o seu país
O opositor turco Fethullah Gülen pediu esta terça-feira às autoridades norte-americanas para “resistirem” à “tentação de dar [ao Presidente turco Recep Tayyip Erdogan] tudo o que ele quer”, incluindo extraditá-lo para o país de origem.
Num editorial hoje publicado na página digital do diário New York Times, Gülen, exilado nos Estados Unidos desde 1999, volta a recusar as alegações de Erdogan, que o acusa diretamente de envolvimento na fracassada tentativa de golpe de Estado de 15 de julho na Turquia, e recorda que sempre se opôs à violência.
O ex-imã, 75 anos, manifesta ainda inquietação pela estratégia do Presidente turco, que “submete os Estados Unidos a uma chantagem ao ameaçar reduzir o seu apoio à coligação contra o grupo [‘jihadista’] Estado Islâmico”.
“O seu objetivo: obter a minha extradição, apesar da ausência de prova credível e sem qualquer perspetiva de um processo justo”, escreve o clérigo.
“A tentação de dar a Erdogan tudo o que ele pretende é compreensível”, explica.
“Mas os Estados Unidos devem resistir”, reforça.
Fethullah Gülen denuncia a “evolução do governo Erdogan para uma ditadura” e inquieta-se dos seus efeitos na sociedade turca.
Para preservar a paz e democracia no Médio Oriente, “os Estados Unidos não devem ceder a um autocrata que está na iminência de beneficiar de uma tentativa de golpe para realizar o seu próprio golpe de Estado ao ‘ralenti’”, exorta o opositor turco.
A Turquia deverá solicitar formalmente em breve a Washington o pedido de extradição.
No domingo, o ministro da Justiça turco, Bekir Bozdag, questionou diretamente os Estados Unidos em relação a este caso.
“A América sabe que Fethullah Gülen está por detrás deste golpe”, declarou.
TPT com: Euro News//WU HONG/EPA// SEDAT SUNA/EPA// SERGEY GUNEYEV / POOL/EPA// HANDOUT/EPA// Ana Freitas/LUSA//Tiago Palma//Observador//28 de Julho de 2016