Foi a primeira vez que Donald Trump falou numa conferência de imprensa formal desde que foi eleito Presidente dos EUA. No meio de acesas polémicas sobre a suposta interferência de hackers russos nas eleições presidenciais e sobre a sua suposta ligação privilegiada ao Kremlin, Trump admitiu pela primeira vez que a Rússia poderá ter mesmo estado por detrás dos atos de espionagem informática. Mas ironizou com a ideia de que Hillary pudesse vir a ser mais dura com Putin do que ele própio.
Sobre o que vai acontecer aos seus negócios enquanto for Presidente dos EUA, confirmou o que já vinha sendo avançado: vai passar tudo aos filhos. E isso não significa que vai continuar a ter acesso a dados e decisões? Não, disse a advogada: vai ser construído um “muro” para barrar toda a informação.
Eis as principais revelações, promessas (e piadas) de Trump naquela que foi a sua mais importante declaração pública oficial, a nove dias de chegar à Casa Branca.
“Acho que foi a Rússia”. Mas será feito um relatório em 90 dias
Donald Trump admitiu pela primeira vez esta quarta-feira que a Rússia poderá mesmo ter estado por detrás dos atos de espionagem informática no processo eleitoral norte-americano. Mas negou — como já tinha feito no Twitter — todas as alegações sobre informação pessoal comprometedora (um documento divulgado pelo BuzzFeed fala em vídeos com prostitutas), criticando os jornalistas que divulgam “notícias falsas”, bem como as agências de inteligência que lhes terão passado o relatório.
“Acho que foi a Rússia”, disse Trump, referindo-se ao país responsável pelas acções de espionagem informática durante as eleições. Nas vésperas das presidenciais, hackers violaram os sistemas informáticos do Partido Democrata e divulgaram dados prejudiciais à sua adversária, Hillary Clinton. Trump admitiu pela primeira vez que pode ter sido a Rússia, mas ressalvou que muitos outros países e pessoas tentam hackear os EUA a toda a hora.
Em qualquer caso, prometeu que vai dar 90 dias aos serviços secretos para produzirem um novo relatório sobre o assunto, sobretudo para os EUA se poderem defender deste “fenómeno”. Pelo caminho, uma crítica dura aos serviços de inteligência norte-americanos: “Acho que é muito triste quando relatórios dos serviços secretos são divulgados para a imprensa”, disse, acrescentando que isso é “ilegal”.
Amizade de Putin é “uma mais-valia”. Mas…”acham mesmo que Hillary ia ser mais dura com Putin do que eu?”
Questionado sobre se aceitava a ideia de que foi Putin que o elegeu, Trump não negou ser alvo da simpatia do líder russo, e até disse que isso não era necessariamente uma coisa má. “Se Putin gosta de Donald Trump considero isso uma coisa boa, uma mais-valia, não uma desvantagem, porque temos uma relação má com a Rússia”, disse. Para depois acrescentar que Moscovo vai respeitar mais Washington com ele na Casa Branca do que respeitou quando outras pessoas estiveram à frente do país.
Mas depois veio a graça, típica de Donald Trump: “Acham honestamente que a Hillary ia ser mais dura com Putin do que eu? Alguém acredita mesmo nisso? Poupem-me (give me a break)“, disse.
Ou seja, mesmo que Vladimir Putin lhe tenha dado um empurrão para a Casa Branca, não é isso que o fará ser menos implacável com a Rússia. Em todo o caso, Trump ignorou a questão que lhe foi feita sobre se alguém na sua campanha teve contactos com Moscovo.
Escândalos sexuais. Tudo falso e, já agora, “tenho fobia a germes”
No documento divulgado pelo BuzzFeed alega-se que, numa visita a Moscovo, Donald Trump terá reservado a suite presidencial do Ritz Carlton Hotel, onde sabia que Barack Obama tinha estado com a mulher, Michelle, e terá contratado várias prostitutas a quem pediu para urinarem na cama onde o presidente norte-americano tinha dormido. Confrontado com estas alegações, Trump foi direto ao ponto: “Acreditam mesmo nessa história? Sou bastante germofóbico (fobia a germes), acreditem em mim”.
Antes, o Presidente eleito tinha começado por dizer que sempre soube que havia pequenas câmaras a “espiar” nos hotéis de alguns países, incluindo na Rússia. Mas diz que é muito cuidadoso. “Sou extremamente cauteloso, estou sempre rodeado de guarda-costas. Digo-lhes sempre para terem cuidado porque nesses hotéis há câmaras nos sítios mais estranhos, impossíveis de encontrar”.
Sobre isso, de resto, Trump insistiu várias vezes que o conteúdo do documento divulgado pelo BuzzFeed não passa de “notícias falsas”. E, em mais um gesto polémico, recusou responder às perguntas da CNN, por aquele órgão ter noticiado esta quarta-feira que o FBI tinha informado Trump e Obama sobre existência daquele relatório com informações alegadamente comprometedoras. O BuzzFeed, contudo, foi o único órgão de informação que divulgou o conteúdo integral do relatório. Os restantes jornais recusaram-se a fazê-lo por não terem conseguido provar a veracidade daquelas informações.
Trump responsabilizou, de resto, os serviços secretos norte-americanos pela fuga de informação.
Promessas de campanha avançam mesmo: muro com o México é para já e Obamacare vai ser substituído
Trump nunca escondeu o desejo de construir um muro a separar o México dos Estados Unidos — e, esta quarta-feira, o Presidente eleito garantiu que vai de facto erguê-lo e assumiu diante dos jornalistas um prazo para o início da construção: um ano e meio. E explica: “Nós vamos construir o muro. Posso esperar um ano e meio até as nossas negociações com o México — que vão começar imediatamente — estarem concluídas. Não vou esperar mais”, garantiu.
Mas, afinal, quem vai pagar? Os contribuintes norte-americanos ou o próprio México? Numa primeira fase, os contribuintes. Depois, o México. Como e quando, Trump não explicou ao certo. “De alguma forma, o México vai reembolsar-nos pelo custo do muro. Isso vai acontecer. E pode acontecer sob a forma de um imposto ou de um pagamento. Não se esqueçam disto, OK?”
Mas nem todo o discurso de Trump foi anti-México. Houve espaço a um elogio disfarçado de crítica. “Eu respeito o governo do México. Eu respeito as pessoas do México. Adoro os mexicanos. Tenho muitos mexicanos a trabalhar para mim. Eles são fenomenais. E o governo do México é magnífico.” Mas… “Não os culpo [mexicanos] por se aproveitarem dos Estados Unidos. Oxalá os nosso governantes fossem tão espertos quanto eles. Sim, o México aproveitou-se dos Estados Unidos. Mas isso não vai voltar a acontecer”, afirmou.
Sobre o Obamacare, outra promessa emblemática de campanha, Trump garantiu que é mesmo para “anular e substituir”. Só não disse pelo quê. “O Obamacare é um problema dos democratas. Nós vamos apresentar uma proposta e isso vai ser em simultâneo. Vamos tratar do serviço de saúde neste país”, disse, garantindo que a alternativa que vai ser encontrada pelos republicanos para o serviço de saúde norte-americano vai deixar todos “muito orgulhosos”.
Outro “muro”: Trump passa gestão das empresas para os filhos e não terá acesso a nada enquanto for Presidente
Numa declaração lida pela advogada Sheri Dillon durante a conferência de imprensa, Trump anunciou o afastamento de todos os cargos que detém na Organização Trump, que reúne o conjunto de empresas da família. Vai passar tudo para as mãos dos filhos mais velhos, Donald Junior e Éric, e para um atual membro executivo da direção, que não é familiar.
Não que seja obrigado a isso, como reforçou, dizendo que as leis norte-americanas sobre conflitos de interesses não incluem o Presidente e o vice-Presidente dos EUA, mas porque não quer que restem dúvidas nas cabeças dos cidadãos norte-americanos. Por isso levou para o local da conferência de imprensa um conjunto enorme de ficheiros que diz ser toda a papelada que já assinou para passar a gestão dos negócios para o nome dos filhos. O conteúdo dos documentos, contudo, não foi divulgado e os jornalistas não puderam ter acesso a eles.
Segundo a advogada, será construído um “muro” simbólico entre o Presidente Trump e a Organização Trump. A advogada garante que Trump “só saberá dos negócios se ler sobre isso nos jornais ou ouvir algo na televisão”.
Este afastamento dos negócios irá acontecer apenas enquanto for Presidente, depois disso volta para as empresas e garantiu que, se os filhos não tiverem feito um bom trabalho, lhes dirá: “You’re fired!” (Estão despedidos!).
Uma promessa. Receitas dos hotéis Trump com governantes estrangeiros vão para os cofres do Estado
Era uma das dúvidas maiores em relação ao conflito de interesses entre Trump-empresário e Trump-Presidente. A advogada do milionário desfez as dúvidas anunciando que, sempre que altas individualidades estrangeiras ficarem alojadas nos hotéis da Organização Trump durante as suas deslocações aos EUA, o dinheiro reverte para os cofres do Estado. O objetivo é que “os cidadãos americanos também possam lucrar”.
Outra novidade: as empresas que produzirem fora dos EUA vão pagar “uma enorme taxa aduaneira” para vender os seus produtos no mercado norte-americano, anunciou.
Divulgação do relatório sobre Trump abre debate sobre ética jornalística
A informação sobre Donald Trump, que esta quarta-feira concentrou as atenções da imprensa mundial, consta de um relatório de 35 páginas há muito tempo conhecido no meio político norte-americano, entre agentes de informação e também entre jornalistas. Nunca foi noticiada. Porquê? Os “jornalistas não podiam verificar os factos [que estavam no relatório] de forma independente”, justifica o The New York Times. “Não havia forma de os verificar de forma independente”, argumenta, da mesma forma, o The Guardian. O site de notícias BuzzFeed acabou por publicar o relatório na íntegra esta quarta-feira e abriu o debate sobre a responsabilidade jornalística que, entretanto, já chegou a outro ponto, o das implicações políticas.
A CNN noticiou que os serviços secretos norte-americanos entregaram a Barack Obama e a Donald Trump, na semana passada, uma síntese a dar conta da existência deste relatório com informações financeiras e pessoais comprometedoras sobre o presidente eleito. Mas o canal televisivo americano não adiantou qualquer pormenor do relatório a que, tal como outros meios de comunicação, tinha tido acesso. O motivo foi o mesmo: falta de condições para verificar a veracidade das informações contidas no relatório.
O diretor do BuzzFeed, Ben Smith, justificou a decisão de publicar o famoso relatório numa nota interna à redação que, mais tarde, revelou no Twitter. No texto defende que o princípio do site é “ser transparente no jornalismo que pratica”. E que o divulgou o documento a que teve acesso precisamente por ter “sérias razões para duvidar das alegações” que ele continha. Aliás, quando publicou a notícia, o BuzzFeed explicou logo que o fazia para que os leitores pudessem fazer a sua própria interpretação sobre os fatos imputados ao presidente eleito.
A decisão centrou o debate em algumas das maiores redações do mundo — foi motivo de artigos a explicar posições individuais, pelo menos, por parte do The New York Times e do The Guardian. No NYT, o jornalista Adam Goldman recorreu à ironia para descrever no Twitter a “sequência de acontecimentos: a CNN encontra uma forma de falar do relatório e o buzzfeed usa essa razão para o publicar. Os críticos vão andar ocupados”. Já Brad Heath, jornalista do USA Today, traça a forma como o jornalismo “não deve atuar”: “Aqui está uma coisa que pode ou não ser verdade. Decide por ti mesmo se é legítimo”.
A questão também suscitou dúvidas ao jornalista Glenn Greenwald, que foi o primeiro a publicar as revelações de Edward Snowden, o antigo consultor da Agência de Segurança Norte-Americana que fez cópias e divulgou informação classificada sobre os programas de vigilância global. O jornalista do The Intercept descreve, assim, o que diz ver no caso do relatório sobre Trump: “Um anónimo, que reclama ser um ex-agente secreto britânico e que trabalha como um investigador democrata, diz que anónimos lhe contaram coisas”.
E o caso também já teve reações políticas, uma delas daquele que foi o porta-voz da campanha de Hillary Clinton, a adversária de Donald Trump na corrida presidencial. Brian Fallon escreveu no Twitter aquilo que os próprios órgãos de comunicação social admitem: já tinham a informação há algum tempo. Mas para fazer uma relação política: “a comunicação social conhecia o relatório antes de 8 de novembro”, a data das eleições.
Escusado será dizer que, a nove dias da sua tomada de posse como presidente, também Donald Trump já veio questionar o timing destas notícias, dizendo que ganhou as eleições “de forma fácil” e que os seus opositores estão a tentar minimizar” essa vitória com “notícias falsas”.
TPT com: AFP//Reuters//CNN//NYT//Mark Lyons/EPA//The Guardian//Rita Tavares//Rita Dinis//Observador// 11 de Janeiro de 2017