Dois feridos graves, um dos quais evacuado para Lisboa, 147 ligeiros, um sem número de habitações destruídas e uma tempestade de caos bem no centro do Funchal. O balanço dos incêndios que lavram desde a véspera na capital madeirense contabiliza ainda os mais de 300 desalojados, o Hospital dos Marmeleiros evacuado, os armazéns industriais consumidos pelo fogo e as unidades fabris devastadas.
Mas é o balanço possível e provisório, porque o incêndio, que começou sem quase ninguém dar por ele numa das encostas da cidade, já prometeu acalmar-se várias vezes e nunca cumpriu. Surgiu sempre mais violento, alimentado pelo vento forte e seco do Norte de África, que fez os termómetros subirem aos 37 graus. Coisa rara, mesmo em Agosto, na Madeira.
As previsões meteorológicas para as próximas horas não são animadoras, e a Madeira teme mais uma madrugada terrível como a de segunda para terça-feira. No final da tarde, o executivo madeirense pediu ajuda a Lisboa. O primeiro-ministro, António Costa, que estava reunido com o comando nacional da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), garantiu o envio ainda nesta terça-feira de uma equipa constituída por dez elementos do Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro da GNR, dez da Força Especial de Bombeiros, dez voluntários e cinco elementos do INEM, para auxiliar os meios já mobilizados pelo governo insular.
A equipa, que tinha a partida agendada para a noite desta terça-feira num avião da Força Aérea, será chefiada pelo segundo comandante da ANPC, mas já durante a noite, à medida que o incêndio alastrava pela cidade, foi decidido reforçar os meios. Aos 35 homens iniciais vão juntar-se mais 40 especialistas em fogos urbanos, que aterram na Madeira às 3h da madrugada, e mais quatro dezenas de bombeiros que chegam ao Funchal pelas 8h da manhã. Ao todo, serão cerca de 110 os elementos enviados pelo Governo da República para reforçar os meios de combate aos incêndios na Madeira.
Mobilização total
António Costa não rejeita qualquer cenário. “Gostaria de dizer também que tomámos a decisão de accionar o pré-alerta para o mecanismo europeu de protecção civil, assim como o acordo bilateral com a Federação Russa, tendo em vista a eventual necessidade de accionar meios, caso durante o próximo fim-de-semana e feriado, dia 15, venhamos a ter uma situação que justifique”, anunciou o primeiro-ministro, explicando que o alerta ainda não foi feito. Trata-se de um “pré-alerta”, de forma a precaver qualquer eventualidades, numa altura em que este mecanismo europeu está com uma capacidade limitada de apoio.
Na Madeira, os serviços de protecção civil estão também no limite. Foi activado o Plano Regional de Emergência e declarada a situação de contingência, que na prática significa a mobilização total dos meios disponíveis.
No terreno — ou melhor, nos terrenos —, a situação, que parecia controlada por volta das 18h, tornou-se caótica. As chamas, que andaram todo o dia nas zonas mais elevadas do Funchal, desceram à cidade espalhando destruição e aflição por onde passavam. E passavam por todo o lado. Já ao início da noite, os incêndios começaram a atingir prédios na baixa da cidade.
Em pânico, apesar dos apelos do governo, a população entupiu as estradas para fugir do fogo, aumentando assim o caos e complicando a circulação dos veículos de emergência. Pessoas tentavam atravessar a cidade para resgatar familiares. Outras apenas queriam regressar a casa. À medida que as horas foram passando, já poucos lugares seguros existiam na cidade
Populares em fuga
Em pânico, apesar dos apelos do governo, a população entupiu as estradas para fugir do fogo, aumentando assim o caos e complicando a circulação dos veículos de emergência.
Pessoas tentavam atravessar a cidade para resgatar familiares. Outras apenas queriam regressar a casa. À medida que as horas foram passando, já poucos lugares seguros existiam na cidade.
O centro histórico do Funchal era um deles, mas anoiteceu a arder. A capital madeirense parecia uma cidade sitiada, onde o ruído do vento era entrecortado, aqui e ali, por uma explosão de botijas de gás e pelas sirenes de bombeiros. Em pânico, sempre o pânico, a população desceu para junto do mar, onde o anfiteatro que circunda a cidade era desolador.
Para quem não conhece o Funchal, para quem nunca percorreu as estradas sinuosas que recortam a paisagem madeirense, os números dos meios técnicos e humanos mobilizados para o combate aos incêndios podem até não impressionar. Falar de 100 ou mesmo 150 homens parece curto, principalmente quando comparamos com as centenas de bombeiros que, nesta época em que o país arde, nos entram pelas televisões e ilustram jornais a enfrentar hectares e hectares de fogo.
É preciso, por isso, viajar até à baixa do Funchal, ali junto ao mar, e olhar para a cidade a crescer, serra acima, por entre lombos e falésias que foram verdes, e agora estão pintadas de cinza e chamas, para melhor medir a dimensão dos fogos. É preciso olhar para a densa nuvem de fumo, respirar o ar carregado de cinza que torna o céu vermelho-fogo, para entender que, mesmo sem os hectares dos incêndios que atingem o continente, as consequências são mais dramáticas.
No Funchal, existem duas cidades. Aquela junto ao mar, de avenidas largas e ruas entrelaçadas de esplanadas e turistas, e a outra, as que os funchalenses chamam de zonas altas, onde a malha urbana divide o pouco espaço, por entre becos e ruelas, com manchas de floresta e mato. Foi ali, nas freguesias de São Roque, Monte e Santo António, que os incêndios começaram por andar, por entre as casas, postos de abastecimento de combustível e armazéns industriais. Na baixa, o fogo nunca tinha aparecido com tamanha violência, até esta terça-feira.
Depois de uma madrugada de desespero e de uma manhã aterradora, a noite chegou ainda mais escaldante. O fogo ganhou vida. Reacendeu-se onde o julgavam morto. Apareceu onde não o esperavam. Destruiu casas, consumiu fábricas, andou por quintais, lambeu paredes de postos de abastecimento. Ouviram-se explosões de gás, pessoas a fugir, e outras, que não queriam ir embora com medo de perder a casa, foram forçadas a sair pela polícia
O fogo ganhou vida
Depois de uma madrugada de desespero e de uma manhã aterradora, a noite chegou ainda mais escaldante. O fogo ganhou vida. Reacendeu-se onde o julgavam morto. Apareceu onde não o esperavam. Destruiu casas, consumiu fábricas, andou por quintais, lambeu paredes de postos de abastecimento. Ouviram-se explosões de gás, pessoas a fugir, e outras, que não queriam ir embora com medo de perder a casa, foram forçadas a sair pela polícia.
Cerca da meia-noite, o presidente da Câmara do Funchal, em declarações à SIC-Notícias, anunciou que centenas de pessoas, entre elas muitos turistas, foram retiradas de duas unidades hoteleiras na baixa da cidade e encaminhadas para o Estádio dos Barreiros — casa do Marítimo, que devido aos fogos cancelou a apresentação oficial ao sócios marcada para esta quarta-feira —, onde deverão pernoitar. Mais tarde, Paulo Cafôfo confirmou em declarações ao Diário de Notícias da Madeira que um outro hotel, o emblemático Choupana Hills, localizado na zona com o mesmo nome, foi totalmente consumido pelas chamas.
Questionado sobre o cansaço do efectivo que combate as chamas, o presidente da autarquia afirmou: “Não vamos descansar. Temos muitas pessoas cansadas, mas enquanto o Funchal não estiver seguro não descansaremos.”
À mesma hora, o presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, reconhecia que os fogos “não estão debelados” e que a situação é “periclitante”. O incêndio mantinha-se às 00h desta quarta-feira com múltiplas frentes activas. Miguel Albuquerque fala em “avultados” danos materiais.
“A prioridade é para atender à salvaguarda de vidas humanas”, disse o governante, sublinhando que será necessário “tentar socorrer da ajuda do Estado para fazer face a danos de natureza pública e privada”.
Um testemunho recolhido pelo jornal Público, relatava que não há sinal de rádio. Segundo a SIC-Notícias, que dá conta de 37 casas afectadas pelo fogo, um centro comercial junto à igreja de São Pedro, no centro histórico do Funchal, está a arder.
O governo regional anunciou entretanto a dispensa, nesta quarta-feira de manhã, dos funcionários públicos que trabalham no centro da capital madeirense, para evitar um grande afluxo de pessoas na cidade. Também o trânsito estava caótico ao final da noite desta terça-feira, com muitos congestionamentos na baixa do Funchal, tendo a PSP encerrado as entradas da cidade, segundo presenciou a agência Lusa.
Durante tarde, o presidente do governo regional anunciou a criação de um fundo de apoio de 163 mil euros para a reconstrução de habitações destruídas ou danificadas nos incêndios e para a reavaliação de alojamentos. Mas, pelo evoluir da situação, a verba será curta para tanta destruição, que não se resume ao Funchal.
Ao longo de todo o dia, as chamas atingiram outros locais da ilha. Os concelhos da Ponta do Sol, Câmara de Lobos e Calheta (todos a Oeste do Funchal) foram os mais atingidos, com os bombeiros a andarem num constante vaivém entre as várias frentes.
Os mais de 300 desalojados, entre os quais os doentes evacuados dos hospitais dos Marmeleiros e Dr. João de Almada, foram transportados para o Regimento de Guarnição n.º 3 do Exército. Aqui, enfermeiros e psicólogos prestam apoio aos desalojados, num quartel que, nos últimos anos, tem sido o porto seguro das populações em momentos de catástrofe, com foram os incêndios no Funchal em 2013 ou o temporal de 20 de Fevereiro de 2010. À noite foram também deslocados alguns civis para um abrigo na escola básica da Nazaré.
O balanço do que já se sabe que as chamas levaram e provocaram na Ilha da Madeira
TRÊS MORTOS
As vítimas mortais são pessoas idosas apanhadas pelas chamas na zona da Pena, em Santa Luzia.
327 PESSOAS FORAM ÀS URGÊNCIAS
A grande maioria, pormenorizou Miguel Albuquerque, foram assistidas devido a intoxicações e a pequenas queimaduras; 80 pessoas continuam internadas.
950 PESSOAS REALOJADOS
Além das famílias que ficaram sem casa, este número incluem casos em que devido à proximidade do fogo, as autoridades optaram por retirar as pessoas das habitações e colocá-las em locais mais seguros. Segundo o Governo regional, 600 estão alojadas no Regime de Guarnição n.º 3 (RG3), no Funchal, outras 300 foram colocadas no estádio dos Barreiros e 50 no centro cívico de São Martinho.
PELO MENOS 37 CASAS DESTRUÍDAS
O número deverá aumentar nas próximas horas, uma vez que a contagem apenas inclui as freguesias de Santo António, São Roque e Monte. Em conferência de impresa, o presidente da região autónoma lembrou que algumas das habitações consumidas pelas chamas podem ser edifícios desabitados.
PELO MENOS DETIDOS TRÊS SUSPEITOS
Um suspeito foi detido e encontra-se em prisão preventiva. Miguel Albuquerque sublinhou que “era muito estranho” três incêndios começarem praticamente no mesmo sítio, em São Roque.
Há ainda mais duas pessoas suspeitas de fogo posto, que foram “apanhadas em flagrante delito”. O presidente da região autónoma não fez mais comentários e remeteu os esclarecimentos para as autoridades.
DOIS HOSPITAIS, DUAS CLÍNICAS E DOIS LARES EVACUADOS
Na terça-feira, o Hospital do Marmeleiro e o Hospital Dr. João de Almada foram evacuados. A retirada de doentes da primeira unidade de saúde aconteceu ainda de madrugada, pouco passava das 5h, quando 200 pacientes foram transferidos para Hospital Central do Funchal. Ao final da tarde, já perto das 19h, o incêndio no Funchal obrigou à retirada de 300 doentes do Hospital Dr. João de Almada, uma unidade destinada a idosos acamados e alguns deles a precisar de cuidados paliativos.
Também se procedeu à evacuação dos lares de Santa Isabel e do Vale Formoso, bem como das clínicas de Santa Luzia e Santa Catarina. A situação já foi normalizada nestes seis locais.
120 BOMBEIROS DE LISBOA E 30 DOS AÇORES
A Autoridade Nacional de Proteção Civil mobilizou 120 operacionais, que se juntaram a 30 dos Açores, para apoio ao combate a incêndios na região autónoma da Madeira, informaram hoje fontes oficiais.
Segundo a agência Lusa, do continente seguiram 30 elementos do Grupo de Intervenção Proteção e Socorro da GNR, 40 do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, dez da Força Especial de Bombeiros (FEB), 30 bombeiros voluntários, cinco do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e cinco da Proteção Civil, liderados pelo segundo comandante operacional nacional, adiantou a mesma fonte. Os operacionais dos Açores pertencem às corporações das ilhas de São Miguel e Terceira.
TPT com: AFP//Reuters//DN//SIC-Notícias//Lusa//Márcio Berenguer//Mariana Oliveira//Público//Marta Gonçalves//Expresso// 10 de Agosto de 2016