246 milhões de dólares é o preço da guerra para ter Angola sem minas

Os Estados Unidos vão doar quatro milhões de dólares para o programa de desminagem de Angola, mas o país precisa de 246 milhões de dólares (cerca de 231 milhões de euros) para cumprir o objetivo de concluir a limpeza até 2025.

 

 

O anúncio da disponibilização desta verba (3,7 milhões de euros) pelo Departamento do Estado, a aplicar este ano, foi feito hoje no Huambo por Constance Arvis, ministra conselheira da embaixada norte-americana em Luanda, no âmbito das cerimónias evocativas dos 20 anos da visita de Diana de Gales àquela província, colocando então Angola em destaque nas necessidades internacionais de desminagem.

 

 

“Esta assistência, implementada através de organizações não-governamentais e em parceria com o Governo de Angola, permite a mais e mais angolanos voltar a casa em segurança, reconstruir as suas comunidades e cuidar das suas plantações”, enfatizou a diplomata.

 

 

Numa altura em que as doações internacionais para a desminagem em Angola caíram 80%, Constance Arvis recordou que os Estados Unidos são “parceiros empenhados nessa luta” e que desde 1995 já investiram mais de 124 milhões de dólares (116,5 milhões de euros) no programa angolano de remoção e destruição de minas terrestres, engenhos não detonados e munições.

 

 

A guerra civil em Angola prolongou-se entre 1975 e 2002, mas desde então estima-se que a desminagem apenas tenha chegado a metade do país, com mais de mil campos identificados que permanecem por desminar.

 

Além de vários acidentes mortais que se continuam a registar no país, sobretudo com crianças, estes campos minados impedem a livre circulação em várias comunidades ou acesso a alguns campos de cultivo.

 

 

Presente hoje no Huambo, o general britânico James Cowan, diretor-geral da Halo Trust, uma das maiores organizações não-governamentais internacionais da área da desminagem, disse que o país ainda tem necessidades estimadas de 246 milhões de dólares (231 milhões de euros) de financiamento internacional para conseguir cumprir a meta de concluir a desminagem do país até 2025, conforme a convenção de Otawa, a que Angola aderiu.

 

 

Apesar de se tratar de uma verba “elevada”, o responsável da Halo Trust, que assegura a desminagem em várias províncias do centro e sul de Angola, afirma que, “dividida pelos próximos anos, por vários países doadores e pelo Governo angolano”, é uma “meta alcançável”.

 

Como exemplo, a Halo Trust aponta o caso do Huambo, onde se registaram intensas atividades militares durante a guerra civil, e que poderá ser a primeira província do país a ser declarada como totalmente livre de minas, já em 2018.

 

 

A Halo Trust promoveu a limpeza de 270 campos de minas no Huambo, desde 1994, restando apenas 18, mas a falta de financiamento fez a organização reduzir de 80 para 13 o total de equipas no terreno, para operações de desminagem e investigação.

 

 

“Temos aqui atrás de nós veículos parados que podiam estar a ser utilizados”, lamentou o general James Cowan.

 

 

Só hoje, numa ação das autoridades angolanas e da Halo Trust, em Tchicala Tcholoanga, a 35 quilómetros do Huambo, foi feita uma explosão controlada de quase uma tonelada de material recuperado em toda a província, no caso 200 morteiros de 82 mm e sete projéteis de 130 mm.

 

 

Desde a visita de Diana de Gales ao Huambo, a 15 de janeiro de 1997, alvo na altura de uma cobertura mediática internacional, Angola garantiu mais de 100 milhões de dólares (94 milhões de euros) de financiamento para desminagem, 60% proveniente dos Estados Unidos.

 

 

Atualmente, além do apoio norte-americano, o financiamento chega a Angola também da Suíça e do Reino Unido – cujas representações diplomáticas também estiveram hoje nas cerimónias no Huambo -, com a Halo Trust a multiplicar os apelos ao reforço dos donativos internacionais, sob pena de o processo de desminagem poder parar.

 

 

“Em memória da princesa Diana, deixem-nos acabar o trabalho”, concluiu James Cowan.

 

 

A guerra acabou mas as minas continuam a destruir vidas

 

 

 

Como outros angolanos, Jeremias Augusto, de 14 anos, sonha ser professor, mas o de continuar a jogar à bola ficou para trás, após ter sido atingido pela explosão de uma mina que, juntamente com os amigos, encontrou no campo.

 

 

“Eu e outro ficamos amputados [uma das pernas], um morreu e dois ficaram feridos”, começou por contar à Lusa Jeremias Augusto, recordando o acidente que viveu a 28 de outubro de 2016, juntamente com os amigos.

 

 

Tudo aconteceu na lavra, para onde ia com o avô para trabalhar. Aconteceu a 28 de outubro de 2016, a quatro quilómetros do chamado campo de Santo António, uma área do Huambo que antes era minada e que há precisamente 20 anos (15 janeiro 1997) foi visitada por Diana de Gales, que então colocou a necessidade de apoio à desminagem em Angola na agenda internacional.

 

 

“O mais novo encontrou e foi passando. Eu botei [atirou ao chão] e não sabia se aquilo ia explodir. A perna foi”, conta. Agora aguarda pelo final de abril para se cumprirem os seis meses de curativos necessários após a amputação da perna e assim, finalmente, colocar a prótese.

 

 

Entretanto, volta à escola em fevereiro, para repetir o sétimo ano, que não chegou a acabar devido ao acidente, e continuar o sonho de vir a ser professor. Com a prótese espera ainda voltar a fazer os trabalhos de serragem e soldadura que já realizava, para ajudar a mãe no sustento da casa e dos sete irmãos.

 

 

“Posso continuar o trabalho de serrar e soldar, mas jogar à bola não”, desabafa.

 

 

Quando a mina explodiu, Manuel, de sete anos, foi outra das vítimas. Também ficou sem uma perna, para desespero do pai, o primeiro-sargento do exército Luís Rodrigues, que ainda não se conforma com o que aconteceu.

 

 

Esteve na guerra e continua no Exército angolano depois do fim do conflito, em 2002: “No tempo que eu fiquei na tropa não cheguei a este ponto, mas o filho recém-nascido ficou amputado. Só para ir urinar tenho de pegar nele na cama e leva-lo para a casa de banho. A guerra acabou a caminho de 16 anos e estas coisas ainda acontecem”, conta o militar, revoltado.

 

 

Para já pede apoio para os tratamentos, já que outro dos cinco filhos ficou também ferido no mesmo acidente.

 

 

“Ou pago a casa, ou pago a escola ou pago os tratamentos. Não sei o que fazer, só peço ajuda”, atira o militar, desolado.

 

 

Os dois filhos do primeiro-sargento Luís Rodrigues e Jeremias Augusto recebem apoio do Centro de Medicina e Reabilitação Física Dr. Agostinho Neto, na cidade do Huambo, mas a unidade debate-se com a falta de recursos e apoio internacional, contando apenas com as “magras” verbas do Orçamento Geral do Estado angolano.

 

Até 2010 colocava entre 10 a 15 próteses por mês, mas depois de perder o apoio da Cruz Vermelha internacional, limita-se, a “três ou quatro”, como contou o diretor técnico do centro, que assegura parte da produção, montagem e colocação.

 

 

“Tendo em conta a procura isso é praticamente uma gota no oceano. A procura é tanta que nós não temos capacidade de resposta”, afirma Secretário Catita Daniel, recordando que mesmo depois do fim da guerra “continuam a aparecer amputados vítimas de minas”, sobretudo crianças.

 

 

A estrutura, diz, está “obsoleta”, ainda do tempo colonial, enfrentando ainda a falta de técnicos. Funciona com apenas 18 pessoas, para necessidades estimadas em 40 profissionais, face às “centenas de pessoas” que recorrem ao centro, que além da montagem e colocação de próteses e órteses faz ainda a reabilitação física.

 

 

“Estamos em ‘stock’ zero”, confessa o diretor do centro, Daniel Tove, referindo-se às “imensas solicitações” de mutilados, não só do Huambo como de outras províncias vizinhas, para colocação de próteses e cujos componentes têm de ser importados.

 

 

De acordo com o responsável, só para retomar a resposta que era dada antes do corte do apoio internacional, seria necessário mais de um milhão de dólares para os próximos anos.

 

 

“A guerra acabou, mas as minas ficaram”, desabafou.

 

 

Só em setembro de 2016, oito pessoas da mesma família foram mortas nos arredores do Cuíto, na província vizinha do Bié, depois da detonação de uma mina antitanque, ainda do período da guerra civil e que foi transportada para casa por uma criança, segundo a organização não-governamental britânica Halo Trust.

 

 

Estas organizações que operam em Angola admitem que face ao corte no financiamento internacional, o objetivo de desminar todo o país até 2025 pode estar comprometido.

 

 

TPT com: AFP//Jornal i//sapo24//Lusa//JA// 14 de Janeiro de 2017

 

 

 

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